QUEM VEM PRA BEIRA DO MAR
A PRAIA E O IMAGINÁRIO DE DORIVAL CAYMMI
Em 1930, então com 16 anos, Dorival Caymmi compôs sua primeira música, “No sertão”. Embora já tivesse fascinação pelo mar, desde quando passava férias na casa de parentes, no Rio Vermelho, praia de Salvador, Caymmi aprendeu a tocar violão com o pai e o tio, dedilhando canções de sucesso da época. “Tatu subiu no pau”, de 1923, foi a primeira execução do jovem Caymmi no violão. Considerada um samba “à moda paulista”, a música era tipicamente caipira, baseada em motivos folclóricos, mas que fez sucesso no Carnaval daquele ano, para alegria de seu compositor, Eduardo Souto (SEVERIANO: 1997). Inspirado talvez pelas toadas, batuques sertanejos, marchas-ranchos e chótis da época, Caymmi tenha feito ”No sertão”, com referências à cultura sertaneja/rural. Nesta canção, Caymmi canta um caso de amor que surgiu numa festa de São João, “na roda brejeira/ na fogueira/ ao soluçar de um violão.” O Caymmi, autor de “No sertão”, não mostra, do ponto de vista temático, o outro Caymmi que se tornaria conhecido, a partir de 1938, ano em que chega ao Rio de Janeiro. Era o período áureo da música popular brasileira (1929-45), em que o rádio e o cinema falado eram as grandes inovações tecnológicas, revelando compositores e intérpretes em início de carreira.
De amador para exímio violonista, Caymmi esquece a paisagem interiorana, tantas vezes reproduzida pelo compositor Catulo da Paixão Cearense, autor de “O luar do sertão” (1914), e passa a falar do mar, poucas vezes cantado na música brasileira da época, conquanto no cancioneiro popular fosse tema recorrente. Um dos raros momentos é a marcha de carnaval “Moreninha da praia” (1933), de João de Barro, que, diferentemente de “Morena do mar” (1972), de Dorival Caymmi, não espera o companheiro na praia e que para agradá-la, devido à demora de retorno da pescaria, a presenteia com conchinhas, peixinhos, estrelas do céu e do mar, pratas e ouros de Iemanjá. A moreninha de Braguinha é urbana, “que mora na areia/ todo o verão”, ao contrário da morena do mar, que vivena praia. Enquanto o primeiro trata de modo circunstancial o mar – ele é apenas o cenário para apresentar a personagem –, o outro mostra o mar como elemento norteador da vida do pescador e sua mulher. O ambiente marinho é tema em diversas manifestações culturais no Brasil, principalmente aquelas realizadas no litoral. Nas letras das cirandas, por exemplo, vê-se refletida a experiência de vida de uma comunidade praieira, com os elementos que compõem seu imaginário, como a praia, o pescador, o peixe, o coqueiro, a sereia. Na literatura, alguns poetas e ficcionistas baianos, anteriores ao aparecimento de Caymmi trataram do tema. A maritimidade está presente na poesia de Gregório de Matos e de Castro Alves, nas novelas de Xavier Marques e nos contos de Vasconcelos Maia, nos romances de Jorge Amado e de João Ubaldo Ribeiro.
Já morando no Rio de Janeiro, onde se consagraria primeiramente com a canção “O que é que a baiana tem?”, interpretada por Carmem Miranda, Caymmi se destaca por fazer músicas que diferem dos gêneros em voga na época, como as marchinhas de Carnaval, em sua maioria com letras ingênuas ou irônicas sobre temas diversos. Ele aparece de mansinho com sua voz retumbante cantando “O mar”, “Noite de temporal”, “Quem vem pra beira do mar”, “História de pescadores”, retratando, assim, em linguagem e harmonia inconfundíveis, a vida dos pescadores do mar da Bahia..
O convívio com o povo de Itapuã, na década de 30, fundou com cores e sons fortes o imaginário de Caymmi, que sem nenhum compromisso com o mercado, tampouco sem pressa, faria canções que revelariam o estilo de um jovem compositor e uma estética que na Bossa Nova será recriado por Ronaldo Bôscoli e Roberto Menescal em canções como “O barquinho”.
Caymmi, numa fase posterior ao boom de “O que é que a baiana tem?”, música-tema do filme “Banana da terra” (1938), compôs vários sambas-canções, os chamados “sambas de meio de ano”. Em “Sábado em Copacabana”, por exemplo, o compositor canta a praia de Copacabana, reduto dos compositores e intérpretes da Bossa Nova. Sua presença entre aqueles jovens artistas, o tornaria um dos mestres da música popular de então, justamente por ter sido um virtuose do violão, instrumento musical representativo do novo gênero. Nesta música, vê-se um Caymmi boêmio, que espera ansioso a chegada do fim-de-semana, para beber, jantar e passear à beira-mar em Copacabana. Esta passagem pela praia mais famosa do Rio de Janeiro foi momentânea enquanto durou a fase do samba-canção na carreira do compositor. Embora cantasse a Zona Sul carioca, indiretamente ele cantava a Zona Norte soteropolitana, onde está localizada a vila de Itapuã de seus fins-de-semana à sombra do coqueiro, apreciando uma morena tomando banho nas águas do mar. “Marina”, o samba-canção mais conhecido do cancioneiro caymmiano, não fala de pescadores, nem de Iemanjá, mas o radical do título nos remete, indubitavelmente ao mar.
É interessante observar, como as canções praieiras de Dorival Caymmi marcam na cultura brasileira a imagem de um paraíso terrestre que atrairia e inspiraria tantos outros artistas. Vinícius de Morais morou em Itapuã nos idos dos anos 70 e encantado com a poesia caymmiana compôs, em parceria com Toquinho, “Tarde em Itapuã”, geralmente confundida como de autoria de Dorival Caymmi.”. Entende-se a confusão, quando esta canção é comparada com “Saudade de Itapuã”, do compositor baiano, principalmente nos trechos em que Vinícius e Toquinho recriam a imagem paradisíaca da praia e a presença mitológica de uma morena, misto de sereia e mulher. Pancetti, pintor conhecido por suas marinhas, morou em Itapuã nas décadas de 40 e 50. Antes de se dedicar à pintura, Pancetti foi marinheiro e aderiu sua experiência de homem do mar à motivação das canções praieiras de Caymmi, para reproduzir com sensibilidade e precisão o mar de Itapuã. O que era vila de pescadores no tempo de Caymmi, tornou-se hoje em um bairro populoso. Nos fins-de-semana e feriados, a praia é freqüentada por moradores de outros bairros da cidade, atraídos (e facilitados por linhas expressas de ônibus) ainda pela fama do lugar.
Em recente concurso, para eleger a música que melhor representasse a cidade de Salvador, o público escolheu, entre as dez músicas previamente selecionadas, “São Salvador”, de Caymmi. Em segundo lugar, ficou “Tarde em Itapuã”, que, se ganhasse, também representaria a cidade, por ser uma espécie de metonímia da Bahia. A beleza natural (as praias) e urbana (arquitetura colonial) é uma das imagens mais reproduzidas da Bahia, ao lado da antigüidade histórica e originalidade cultural (RISÉRIO: 1993). A maneira como o compositor apresenta esta paisagem, sem rebuscamento, é o que mais encanta o público. Caymmi reproduz nas cordas do violão o ritmo natural da vida “itapuãzeira”. Se é o vento que faz cantiga nas folhas do coqueiro, Caymmi nos faz ouvir esta canção. Se é a tempestade que cai de repente, pondo em risco a vida dos pescadores em alto-mar, Caymmi nos faz ouvir tanto os raios e trovões quanto a reza das mulheres, pedindo a Deus que os proteja do tempo ruim.
Na Gazeta Mercantil, de 18 de fevereiro de 2000, Caymmi declarou que não tinha preocupação social quando fazia suas canções praieiras:
apenas procurava reproduzir o que via: ingenuidade de pessoas simples, a pureza, sem queixa, as roupas surradas, ninguém procurando calçar nada, sempre descalço, a humildade. Eram os anos 20 para 30. Não havia o rádio para influenciar essas pessoas, nada de política.
Neste ponto, ele diverge de Jorge Amado. O que importa para Dorival Caymmi não é a exploração do homem pelo homem, daí Antônio Risério considerar sua produção praieira essencialmente pré-industrial. Caymmi
é envolvimento simpático, não apreciação ética ou psicológica. Daí que inexistam enclaves ideológicos em seu texto. Podemos discuti-lo ideologicamente em outro nível: o da paisagem que ele privilegia; o da cena que ele celebra; o do ângulo que ele escolhe. Pois tudo aí tem a marca do imediato, sem truques premeditados ou deslizamento de sentido. Caymmi é o poeta do sensível na vida. Do palmar. Do táctil. E seu objetivo é o encantamento sensorial. (p.101)
Dorival Caymmi confessou que seu sonho é chegar à perfeição de um autor dos mais simples, dos mais puros, de uma “ciranda, cirandinha”, “uma coisa que se perca no meio do povo.” Uma de suas canções praieiras mais conhecidas, “A canção da partida”, de “História de pescadores”, já é de domínio público. Quem ouve os versos desta canção (“Minha jangada vai sair pro mar/ Vou trabalhar, meu bem-querer/ Se Deus quiser, quando eu voltar do mar/ Um peixe bom eu vou trazer/ Meus companheiros também vão voltar/ E a Deus do céu vamos agradecer.”) pode não conhecer seu autor, mas sua letra e melodia são reconhecidas imediatamente. Aos 86 anos de idade e com mais de 60 anos de carreira, Dorival Caymmi não tem pressa em ver realizado seu sonho. Suas canções, assim como de outros compositores da “poemúsica popular brasileira”, atravessam os anos e transformam-se em registros musicais de gentes, lugares e tempos míticos.
Referências Bibliográficas:
CAYMMI, Dorival. Cancioneiro da Bahia. Rio de Janeiro: Record, 1978.
CHEDIAK, Almir. Songbook Dorival Caymmi.Rio de Janeiro: Ed. Lumiar, 1994. vol. 1.
COSTA, Aramis Ribeiro. et al. O mar na prosa brasileira de ficção. Ilhéus: Fundação Cultural/Editus, 1999.
FRADE, Cascia. Folclore. São Paulo: Global, 1991. (Coleção para entender; vol. 3)
RISÉRIO, Antonio. Caymmi: uma utopia de lugar. São Paulo: Perspectiva; Salvador, BA:COPENE, 1993. (Debates; vol. 253)
SEVERIANO, Jairo. et al. A canção no tempo – 85 anos de músicas brasileiras (1901-1957). São Paulo: Ed. 34, 1997 (Coleção Ouvido Musical; vol. 1)